É comum encontrarmos pessoas afirmando que são céticas em relação a um determinado tema, especialmente aqueles que envolvem o paradigma espiritual. Mas o que realmente significa ser um cético?
O dicionário Priberam define o cético como um “indivíduo descrente ou que duvida de tudo”. Mas em que consiste duvidar de tudo? A descrença não seria a crença inversa? Ou seja, a crença de que algo não é possível? O descrente também crê, só que é uma crença na antítese do pressuposto, o que nos permite facilmente perceber que a palavra esconde em si um paradoxo, talvez uma verdadeira armadilha para o ego.
Outro aspecto interessante é analisar o que consiste ser alguém que duvida de tudo. Para duvidar eu preciso ter alguma certeza, preciso ter alguma crença de que algo é impossível, desta forma, é impossível duvidar sem que exista algum paradigma para se “amarrar”. Quem duvida de tudo, em verdade, duvida de tudo “que foge ao paradigma em que se vive”.
Neste sentido, ser um cético é viver em um paradoxo. É acreditar que é possível ser um descrente sem acreditar em algo, sem perceber que a própria descrença é o resultado do movimento em torno de uma outra forma de crer.
Por isso, alguém que se apresenta como cético – possivelmente – ainda não identificou o paradigma em que ele próprio vive. Posto isto, a pergunta que deixo para reflexão é a seguinte: Como ser imparcial se não conhecemos o paradigma em que estamos imersos?
15-Junho-2008 às 9:41 pm |
Olá!
Permita-me um comentário?
O ceticismo é uma das três principais correntes filosóficas oriundas do helenismo. Ser cético consiste em ’suspender o julgamento’ até que existam mais elementos capazes de permitir um que seja correto.
Se alguém pergunta a um cético: ‘o que vc acha de vida fora da Terra’, ele diz ‘não existem provas’. Ou seja: nem afirma a existência, nem a inexistência. Ele suspende o julgamento.
Assim, s.m.j, ser cético não é ‘duvidar de tudo’, é simplesmente abster-se de fazer qualquer juízo de valor ou de fato acerca de determinado assunto se inexistirem elementos suficientes que permitam.
Um cético não emite juízos precipitados.
Bom…é só.
Abraços!
15-Junho-2008 às 10:07 pm |
Olá Fátima, concordo com você.
Em relação ao exemplo de não existir vida fora da terra, de fato não há como obter provas materiais para tanto, ao menos por enquanto. No entanto, a estatística nos mostra que isto é possível. Mas o cético não acredita nisto pois ele vive em um paradigma que não aceita a estatística, apenas provas materiais. Ou seja, ele vive conforme a sua própria realidade, que não deixa de ser válido.
Um ufólogo não precisa de muito para acreditar em vida fora da terra pois este conceito é condizente com o paradigma em que vive.
O que quis explorar no texto é justamente isto, em primeiro lugar que o ceticismo é um corrente filosófica igual a qualquer outra, e de que para sermos imparciais precisamos conhecer o paradigma em que vivemos.
Ah, uma coisinha a mais. Quando decido “suspender o julgamento”, faço isto por julgar não existirem evidencias suficientes. Assim sendo, o ceticismo é uma forma de julgamento também.
Boa noite.
17-Junho-2008 às 5:17 pm |
“Não acreditar que é” é diferente de “acreditar que não é”.
Pelo exemplo dado acima:
- acreditar que [não existe vida fora da terra] – significa que a pessoa já chegou a uma conclusão: a de que NÃO existe vida fora da terra (talvez essa pessoa tenha alguma prova ou forte indício disso).
- não acreditar que [exista vida fora da terra] – significa que a pessoa não conhece qualquer prova da existencia vida fora da terra, é cética, descrente dessa possibilidade, está esperando o surgimento de provas definitivas de que existe vida ou não.
O ceticismo não é uma forma de julgamento, compare:
acreditar que é = decisão tomada, forma de julgamento, afirmação da existência
acreditar que não é = decisão tomada, forma de julgamento, afirmação da não-existência
não acreditar que é = dúvida (ceticismo) quanto à existência
não acreditar que não é = dúvida (ceticismo) quanto à não-existência
abraço
17-Junho-2008 às 9:41 pm |
Olá Tyrannosaurus, você poderia trazer alguma referência para esta afirmação? Eu acredito que ela contraria a lógica, mas posso estar errado. Vejamos a seguir, com outros exemplos:
a) eu acredito que 1 + 1 não é 3 = eu não acredito que 1 + 1 é 3
b) eu acredito que 1 + 1 é 2 = eu não acredito que 1 + 1 não é 2
Em “a” eu tenho um “acredito” e “não acredito”, e ambas são verdadeiras e a meu ver idênticas.
Em “b” eu insiro duas negativas tanto na primeira oração quanto na segunda, e o sentido permanece o mesmo.
Por isso lhe peço uma referência, pois não consigo perceber que “Não acreditar que é” é diferente de “acreditar que não é”.
Observe a minha frase anterior, vou escreve-la igual mas sem as negativas: eu consigo perceber que “Não acreditar que é” é igual a “acreditar que não é”.
Estarei aguardando o seu retorno para ver se eu saio deste paradoxo apresentado por você.
Abraço e boa noite.
18-Junho-2008 às 11:08 am |
Olá de novo, Bruno
Bem, a melhor referência que consigo pensar no momento é a própria lógica matemática.
Acho que consigo explicar melhor usando o cálculo sentencial.
Vejamos como poderiam ser representadas as seguintes proposições:
a) eu acredito que o sol é azul
b) eu não acredito que o sol é azul
c) eu acredito que o sol não é azul
d) eu não acredito que o sol não é azul
Notamos 2 proposições básicas:
1: “o sol é azul”
2: “eu acredito na afirmação seguinte”
e suas negações:
1′: “o sol nao é azul”
2′: “eu não acredito na afirmação seguinte”
Cada proposição pode ser representada por uma letra:
1: “o sol é azul” => Z
2: “eu acredito na afirmação seguinte” => A
1′: “o sol não é azul” => ~Z
2′: “eu não acredito na afirmação seguinte” => ~A
Assim as frases serão representadas da seguinte maneira:
a) eu acredito que o sol é azul => A.Z
b) eu não acredito que o sol é azul => ~A.Z
c) eu acredito que o sol não é azul => A.~Z
d) eu não acredito que o sol não é azul => ~A.~Z
Tabelas-Verdade:
A Z ~A ~Z A.Z ~A.Z A.~Z ~A.~Z
- – — – — —- —- —–
F F V V F F F V
F V V F F V F F
V F F V F F V F
V V F F V F F F
Observe que as quatro colunas finais tem resultados diferentes.
Você pode procurar no Google mais informações sobre cálculo de predicados e cálculo sentencial.
Abraço
18-Junho-2008 às 11:10 am |
ops… a formatação da tabela ficou errada… e no lugar dos smilies deveria haver perênteses…
18-Junho-2008 às 11:24 am |
Troquei o parênteses por dois pontos. Vou analisar a sua resposta e responderei em seguida.
Até mais.
22-Junho-2008 às 3:09 pm |
Olá Tyrannosaurus,
Consegui entender os seus argumentos, e agora percebo a diferença entre “acreditar” e “não acreditar”. Quem acredita está convicto e quem não acredita é cético.
Quem acredita já possui argumentos que tornam o conceito em análise verdadeiro.
Quem não acredita é porque duvida que o conceito em análise seja verdadeiro.
No artigo eu questiono as pessoas que se apresentam como céticas. Pois o ceticismo, a meu ver, é intangível ao ser humano, e os que se julgam cético na verdade assumem esta postura para tudo aquilo que foge ao paradigma em que vive. Mesmo que a ciência venha a provar que existe vida fora da terra, este suposto cético continuaria não acreditando, pois esta nova verdade fugiria da realidade em que esta pessoa vive.
Como exemplo, mesmo com todos os avanços científicos a respeito da formação do planeta terra e dos homens, existem pessoas que duvidam destes argumentos e continuam acreditando que o universo foi criado em 7 dias e que existiram Adão e Eva. Existe um número crescente de pessoas que acreditam que o homem não foi a Lua e que os Judeus não sofreram genocídio na Segunda Guerra Mundia. Estas pessoas que duvidam de tudo são realmente céticas, ou seriam pessoas alienadas?
Eu achei bem legal tudo que escreveu, mas você está usando isto para refutar o que eu escrevi?
Para voltarmos ao assunto do artigo, você acha que é possível alguém ser realmente cético?
23-Junho-2008 às 11:37 am |
Olá Bruno
Não.
Seu texto se baseia em dois pontos:
1) “O descrente também crê, só que é uma crença na antítese do pressuposto [...]”
2) “Quem duvida de tudo, em verdade, duvida de tudo “que foge ao paradigma em que se vive”.”
E o texto termina questionando:
“Como ser imparcial se não conhecemos o paradigma em que estamos imersos?”
Minha argumentação inicial, e também da Fatima acima, referia-se à afirmação (1).
Seu questionamento é válido: Ser cético é duvidar de tudo? Como ser cético sem ultrapassar o limite do racional?
Esse é o ponto. Nesse caso isso já não é um ceticismo saudável e racional; se a ciência provar que existe vida fora da terra, continuar afirmando que não, pode estar ultrapassando o limite do racional e beirando a teimosia irracional. A pessoa em questão pode ter bons argumentos (ou provas) de que não existe vida fora da terra, mas a ciência sem dúvida deve ter considerado essa possibilidade, não? Se considerou então a questão está encerrada, até que surjam novas provas em contrário. Assim é ciência.
Exatamente, isso já não é mais ceticismo. Insistir quando já não há argumentos racionais nem provas é teimosia. Saber o limite talvez seja um problema mais psicológico que filosófico; duvidar e exigir provas é saudável mas ser um descrente teimoso é tão ruim quanto ser um crente teimoso.
Penso que o problema surge quando uma pessoa deseja que algo seja verdade ou tem preferência por esta ou aquela teoria – perdeu a imparcialidade e a racionalidade. Por exemplo, os que acreditam que o universo foi criado em 7 dias e que existiram Adão e Eva. Eles acreditam ser assim não porque possuam provas ou argumentos lógicos que apoiem essa hipótese mas porque escolheram aceitar essa teoria e insistir nela mesmo sem provas ou até com provas em contrário!
Outra fonte de confusão é a ambigüidade do verbo “acreditar”:
1) pensar, julgar, opinar, ser da opinião que… ;
2) aceitar como sendo verdade mesmo sem provas;
“Eu acredito que existe vida fora da terra” – Será uma opinião baseada em argumentos lógicos ou uma crença (religião)?
Pessoalmente eu prefiro, sempre que possível, evitar o verbo ‘acreditar’.
Em vista do exposto acima, sim, acho. Contanto que se evite a teimosia irracional e a tendência a preferir esta ou aquela teoria, é preciso manter a mente aberta, ser racional e coerente.
Por exemplo, ainda sobre a vida fora da terra: acho bastante possível estatisticamente, existem bilhões de outros planetas, acho difícil aceitar que apenas a terra abrigue vida; mas sou cético, espero provas concretas. Acho que essa é uma postura cética. E se surgirem as tais provas concretas? Nesse caso o assunto estará encerrado, até que surjam novos dados.
24-Junho-2008 às 7:19 am |
Olá, bom-dia!
Recentemente, quando discutia com um amigo sobre o ceticismo, ele me explicou que se houvesse uma escala (do ceticismo), teria ela três degraus, quais sejam:
Não sei se a informação está correta, posto que não tive ainda oportunidade de checá-la. Talvez o amigo Tyrannus possa confirmá-la ou negá-la.
Grande abraço a todos!
24-Junho-2008 às 11:01 am |
Olá Fatima
Desconheço a informação. Mas concordo com a idéia de que existam graus diferentes de ceticismo, provavelmente relacionados ao amadurecimento, nosso e de nossa filosofia. Eu compararia a uma balança onde de um lado temos o crente teimoso, ingênuo, crédulo, que continua crente mesmo com provas em contrário (deseja que certos fatos sejam verdadeiros) e de outro o descrente que também teimosamente nega tudo (é o que eu chamo de espírito-de-porco), que continua descrente mesmo com provas em contrário (deseja que certos fatos não sejam verdadeiros) – este corre o risco de ver seu ceticismo se transformar numa espécie de religião. O ponto de equilibrio acontece quando não desejamos, apenas aceitamos a verdade comprovada ou aceitamos que algo deva permanecer pendente, a ser comprovado no futuro. E, conseqüentemente, aceitamos que nossas teorias sobre os fatos pendentes podem se mostrar erradas e nesse caso deverão ser refeitas.
Numa frase: para haver ceticismo não pode haver crença.
29-Junho-2008 às 4:14 pm |
O artigo busca relacionar os paradigmas em que vivemos com a nossa capacidade de sermos imparciais, e assim, céticos.
Pirro de Élida, filósofo grego do século III a.C. que fundou a doutrina cética, diz que “O autêntico sábio [...] deve praticar a suspensão do juízo (epokhe), estado de repouso mental em que predomina a insensibilidade (apathia), em que nada se afirma e nada se nega (aphasia), de modo a atingir a felicidade pelo equilíbrio e pela tranqüilidade (ataraksia)”[1].
Não acreditar não é a mesma coisa que negar? A suspensão de juízo realmente é possível? Bem, era este tipo de reflexão que eu estava buscando com o artigo.