Embriões: uma questão de ética e não de religião ou ciência

No processo de legalização “plena” do uso de células para a pesquisa científica, foi comum a mídia associar que estava em campo uma disputa entre a religião e a ciência, entre a fé e a razão.

A mídia fugiu de um cenário ponderado e equilibrado e situou-se nos extremos. Mostrou de um lado religiosos fanáticos e do outro seres humanos com algum tipo de paralisia clamando pela esperança sofrida de um dia retornarem os movimentos de algum membro do corpo.

Falou-se muito pouco da ética e moral, da quantidade de embriões necessários para uma inseminação artificial, se de fato as células representam a possibilidade de cura para as mazelas humanas e de quando – de fato – a vida de um ser humano inicia. Tudo isso justificado por um suposto atraso científico que poderia arruinar o Brasil. Como se não houvessem outros tantos atrasos que constantemente nos assolam.

Pois bem, mas o que realmente chamou a minha atenção foi esta “cruzada” da mídia em torno do tema. Colocando a fé de um lado do ringue e a ciência do outro.

O dicionário Priberam define fé como (link):

do Lat. fide, confiança

s. f.,
crença religiosa;
crença, convicção em alguém ou alguma coisa;
convicção;
firmeza na execução de um compromisso;
crédito;
confiança;
intenção;
virtude teologal.


dar -: dar tento, acreditar, ver;
empenhar a -: dar a palavra;
fazer -: outorgar certeza;
- púnica: deslealdade, perfídia.

É claro perceber que a fé não é a conseqüência (ou causa) da religião, e sim da própria essência criativa e evolutiva do homem. As descobertas científicas partem de um pressuposto (normalmente uma inspiração) que deverá ser comprovado utilizando-se de metodologias cientificamente aceitas. Mas até que isto seja comprovado, você estará lidando com a convicção e intenção do cientista. Desta forma, é ingenuidade separar a fé da ciência, pois esta sempre parte daquela para alcançar uma descoberta.

Mais ingênuo ainda é acreditar que a ciência deve submeter-se à religião. Como se Deus, criador de todo o universo e as suas leis, não tivesse previsto a evolução da ciência entre os “zilhões” de planetas habitados por seres inteligentes. Como se a ciência fosse um caminho diferente daquele previsto por Deus para nós, ou como se as leis e novas possibilidades que a ciência desvenda a cada dia fossem “coisas” escondidas por um suposto Deus maquiavélico. Ora bolas…

Atualmente existem inúmeras doutrinas com fortes aspectos religiosos que não abrem mão de uma explicação científica para o universo, da mesma forma que aumenta a cada dia a quantidade de cientistas que percebem Deus através das leis e corolários que desvendam.

Quando daremos voz a estas pessoas? Talvez as poucas realmente aptas a praticar uma ciência com ética e que respeite a vida antes de qualquer especulação.

Última revisão: 03/06/2008.
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2 respostas para Embriões: uma questão de ética e não de religião ou ciência

  1. Fatima disse:

    Olá.

    Recomendo a leitura da ‘Lógica da Pesquisa Científica’ de Karl Popper.

    A ciência não ‘parte da fé’.

    Ela começa sim, da observação de um fato, levantamento de hipóteses que poderiam explicar o fato, experimentação (para confirmar a hipótese levantada) com duplo cego, depois a ‘tese’ é ‘atacada’ de todas as formas possíveis (na tentativa de derrubá-la) e só a final, não sendo derrubada, é ela (a tese) alçada à condição de ‘Teoria Científica’ que pode ser derrubada a qualquer momento ou complementada.

    Abraços.

  2. Bruno SL disse:

    Oi Fátima, vamos lá então.

    Quando me refiro a palavra “fé”, estou buscando o sentido mais amplo, principalmente quando se refere a “crença, convicção em alguém ou alguma coisa”. Ver artigo.

    Assim, quando falo que a ciência parte da fé, refiro-me que ela parte de alguma convicção do observador.

    Corrija-me se eu estiver errado, mas esta seqüência que citou refere-se ao método empírico-analítico, correto? Pois bem, este não é o único método adotado pela ciência. Mas tudo bem, vamos ficar apenas nele.

    Na página do Comando e Estado-Maior da Aeronáutica (http://www.unifa.aer.mil.br/ecemar/pesquisa/Textos2005_2.htm), temos a seguinte pergunta: “Como chegar a uma hipótese?” Ela foi respondida da seguinte maneira:

    “O processo de elaboração de hipótese é de natureza criativa. Por essa razão é freqüentemente associado a certa qualidade de ‘gênio’. De fato, a elaboração de certas hipóteses pode exigir que gênios como Galileu ou Newton as proclamem. Todavia, em boa parte dos casos a qualidade mais requerida do pesquisador é a experiência na área. Não é possível, no entanto, determinar regras para a elaboração de hipóteses. Nesse sentido, cabe lembrar o que escreveu De Morgan há mais de um século: ‘Uma hipótese não se obtém por meio de regras, mas graças a essa sagacidade impossível de descrever, precisamente porque quem a possui não segue, ao agir, leis perceptíveis para eles mesmos.’”

    Como exemplo, o artigo cita inclusive a intuição como maneira de elaborar hipóteses.

    Pois bem as hipóteses são elaboradas partindo de convicções e intuições, e por isto está atrelada a fé.

    Assim, é possível concluir mais uma vez que a ciência parte da fé para a descoberta, e a descoberta gera novas convicções e novas intuições, como em um ciclo evolutivo.

    Abraço.

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